
Viajar com cães e gatos deixou de ser uma exceção para se tornar uma das tendências mais evidentes da indústria global de turismo. Em reportagem publicada em março de 2025, a National Geographic Traveller UK afirmou que “nunca houve um momento melhor para viajar com pets”, destacando que mais pessoas estão incluindo seus animais nas férias e que hotéis, atrações, cruzeiros, companhias especializadas e até serviços de transporte vêm se adaptando a essa nova demanda. Segundo a publicação, dados do 2024 Annual Vacation Confidence Index, da Allianz Partners USA, mostram que mais de 40% dos viajantes norte-americanos entre 34 e 54 anos pretendem levar seus pets na próxima viagem. Entre os viajantes com mais de 55 anos, o índice é de 24%.
O movimento aparece também nos números reunidos pela Condor Ferries, em levantamento publicado como Pet Travel Statistics 2025. De acordo com o site, 53% dos viajantes tiram férias com seus pets, mais da metade dos tutores pretende viajar com seus animais este ano e cerca de 2 milhões de animais domésticos embarcam em voos comerciais todos os anos. O mesmo levantamento aponta que 52% dos entrevistados dizem se hospedar apenas em propriedades pet-friendly, enquanto 37% das famílias viajam com seus animais, um crescimento de 19% na última década.
Os cães ainda lideram esse mercado. Segundo a Condor Ferries, eles representam 58% dos pets que viajam no mundo. Os gatos aparecem em segundo lugar, com 22% das viagens anuais com animais. A publicação também mostra que 37,5% dos tutores entrevistados dizem simplesmente não viajar sem seus pets, 20% já telefonaram para casa para “falar” com o animal durante uma viagem e 15% organizam chamadas de vídeo com seus bichos quando estão fora.
A tendência é impulsionada por mudanças de comportamento pós-pandemia, pelo aumento da posse de animais e pela consolidação do trabalho remoto e do nomadismo digital. A Business Traveller, em reportagem publicada em 20 de março de 2026, destaca que a posse de pets cresceu 9% no Reino Unido depois da pandemia e que a chamada “pawprint economy” foi apontada como uma das tendências-chave de viagem para 2026 em relatório da Amadeus e da Globetrender. A publicação também cita previsão da Bloomberg de que a indústria global de pets deve atingir US$ 500 bilhões até 2030.
A hotelaria tem sido uma das primeiras áreas a responder. A National Geographic Traveller UK cita exemplos como a rede Kimpton, que recebe animais e oferece menu canino, tigelas personalizadas nos quartos e lista de serviços pet-friendly nas proximidades. A reportagem também menciona hotéis no Reino Unido com camas especiais para cães, creches caninas, circuitos de agility e áreas cercadas para passeio. Segundo a Paws & Stay, citada pela National Geographic, 70% das reservas feitas em 2024 foram para propriedades com jardim fechado.
O crescimento também aparece em serviços especializados. A Petraveller, empresa australiana de transporte internacional de animais, afirma que mais de 50% dos tutores planejam viajar com seus pets e que 37% pretendem fazer de três a cinco viagens com seus animais no próximo ano. Outros 31% planejam seis ou mais viagens. A empresa também aponta que mais de 50% dos tutores organizam a viagem em torno das necessidades do pet, incluindo escolha de hospedagem, roteiro e atividades.
O carro segue como meio preferido, mas o avião ganha espaço. Segundo a Petraveller, mais de 60% dos tutores preferem viajar de carro quando têm essa opção, com o avião em seguida. Já a Condor Ferries aponta que 54,6% dos entrevistados levam o pet no carro mais de seis vezes por mês e que 56% dirigiram com seus cães no veículo pelo menos uma vez por mês no último ano.
O transporte aéreo, no entanto, ainda é um dos principais desafios. A National Geographic Traveller UK lembra que as regras variam de país para país: no Reino Unido, apenas cães de assistência podem viajar na cabine; nos Estados Unidos e na Europa, pets pequenos costumam poder viajar em caixas de transporte sob o assento, enquanto animais maiores vão no porão. A reportagem cita ainda o surgimento de companhias e serviços de jatos fretados voltados a cães, como a Bark Air, com rotas entre cidades como Nova York e Londres, embora com preços elevados, em torno de US$ 8 mil por pessoa com cachorro.
A tendência chega também aos trens e cruzeiros. Segundo a National Geographic Traveller UK, viajar de trem com pets é uma alternativa mais simples na Europa: no Reino Unido, eles viajam gratuitamente nos serviços ferroviários, enquanto em muitos trens continentais podem embarcar com bilhetes com desconto. A publicação também cita o anúncio da Cruise Tails, apontado como o primeiro cruzeiro dog-friendly do mundo, previsto para sair da Flórida com capacidade para 2.650 passageiros e 250 cães.
Mais do que uma comodidade, a hospitalidade pet-friendly passa a influenciar diretamente a decisão de compra. Segundo a Condor Ferries, 80% dos viajantes de lazer com cães consideram importantes políticas como praias, pubs e espaços pet-friendly. Ao mesmo tempo, 35% dos tutores fazem viagens mais curtas por causa dos animais e 25% viajam menos pelo mesmo motivo. Esses dados mostram que, quando a estrutura não acompanha a demanda, o turismo perde oportunidades.
O momento é especialmente importante porque a presença dos pets está deixando de ser tratada como nicho e começa a reorganizar a oferta turística. Hotéis, transportadoras, atrações, companhias aéreas, cruzeiros, plataformas de hospedagem e serviços de documentação e transporte internacional passam a competir por um viajante que não quer mais escolher entre sair de férias e ficar perto do animal. Em um mercado no qual cães e gatos já fazem parte da família e da experiência de viagem, ser pet-friendly deixa de ser diferencial simpático e passa a ser estratégia de negócio.


